O ENEM não é suficiente para avaliar o ensino

Escolas precisam de um índice de qualidade de vida do aluno. As escolas parecem ter enlouquecido na disputa insana do mercado. Enquanto exibem suas estatísticas de desempenho no ENEM e colocações nos vestibulares, seus alunos estão cada vez mais estressados e infelizes. É preciso desenvolver um método de avaliação mais abrangente para as escolas, um que inclua o ambiente em que a criança e o adolescente se desenvolve e se forma como pessoa.

 

O Exame Nacional do Ensino Médio foi criado em 1998 com a intenção de avaliar a qualidade do ensino médio no Brasil e seus resultados são utilizados para o acesso ao ensino superior pelo SiSU, bem como a programas de custeio como o FIES e o ProUni. O ENEM também serve como certificado de conclusão do ensino médio.

Apesar do intuito de estimular a melhora do ensino médio, os efeitos colaterais desse programa já se observam e quem adoece são os estudantes. Antes do ENEM, as escolas particulares faziam sua propaganda dizendo quantos de seus alunos tinham sido aprovados na USP, UNICAMP e outras grandes faculdades públicas. Essa era uma medida que dava uma idéia da qualidade do ensino, mas o surgimento do ENEM permitiu a comparação direta do desempenho de cada escola e com isso a competição tornou-se mais acirrada, bem como suas distorções.

A primeira distorção observada foi decorrente do fato de o ENEM ser facultativo nos seus primeiros anos. As escolas começaram a investir nos seus melhores alunos e sugeriam sutilmente que os de menor performance não fizessem a prova. Obviamente, tudo de forma muito velada e jamais admitida publicamente. Mas convivendo com crianças com Déficit de Atenção e Hiperatividade, sei bem como era. A partir de 2013 o ENEM tornou-se obrigatório e a estratégia das escolas mudou.

Se não era mais possível selecionar os alunos que fariam as provas, as escolas passaram a aumentar as cobranças ao longo de todo ensino fundamental e médio para que os piores alunos desistissem e no terceiro ano estivessem com uma seleção de craques para prestar a famigerada avaliação do ensino médio.

A pressão sobre os alunos vem de todos os lados. As aulas começam às 7 da manhã e vão para além das 13 horas, passando o horário de almoço. O número de matérias e de avaliações aumentou. Algumas escolas adotam uma prova especial que contém as matérias de todas as disciplinas e o resultado dessa prova pode abaixar as notas nas disciplinas em que o aluno tinha ido bem. Muitas escolas têm aplicado provas nos sábados e domingos, deixando os alunos com um ou dois finais de semana livres por mês. A carga de matérias exige que o adolescente estudo no mínimo 3 horas por dia em casa para dar conta das tarefas e conteúdos a assimilar. Além disso, a cobrança nas avaliações faz com que os alunos tenham que dar o melhor de si para atingirem a média, ficando muitas vezes a maioria da turma com notas vermelhas. Por fim, como se já não bastasse, ultimamente algumas escolas têm compactado todo o conteúdo dos três anos de ensino médio e administrado esse conteúdo em dois anos, reservando o “terceirão” para uma revisão geral, como um cursinho extensivo de um ano.

Diante de tanta cobrança e tanta pressão por parte das melhores escolas, os alunos vivem sob estresse, têm mais ansiedade e com frequência desabam em depressão e estafa. Muitos trocam de escola, buscando as “mais fracas” que lhes permitam respirar. Essa atitude favorece o selecionamento dos mais inteligentes, estudiosos e resilientes que permanecem nas melhores escolas comprovando seu alto nível de qualidade, pois suas notas no ENEM e vestibular são também as melhores.

Acontece que o mundo não é feito somente dos melhores. De fato, as capacidades lógico-matemáticas e linguísticas tão cobradas no currículo tradicional distribuem-se de forma normal na população, estando a maioria na média da curva de Gauss, dentro do desvio padrão, e existem os que saem para as extremidades superiores e inferiores do sino, os melhores e os piores, respectivamente. É fácil imaginar que no contexto onde somente os melhores são premiados com boas notas, a autoestima dos que são medianos fica lá embaixo.

Precisamos mesmo rever a forma de avaliação das escolas e desenvolver um índice de qualidade que inclua o bem estar e a felicidade dos alunos em estudar e aprender, além do simples desempenho no ENEM e vestibulares. As escolas não tomarão, com raras e louváveis exceções, a iniciativa de contestarem e se rebelarem contra a classificação com base exclusiva no desempenho em provas. Do mesmo modo que se adaptaram ao advento do ENEM nos últimos 20 anos, também se adaptarão rapidamente se a sociedade criar uma outra forma de avaliação de qualidade de vida escolar.

Uma linha que poderia ser seguida com grandes ganhos seria o das múltiplas inteligências de Howard Gardner. Além da inteligência linguística e lógico-matemática, existem outras inteligências a serem desenvolvidas e contempladas no ambiente escolar. Dentre elas, destacam-se a inteligência intrapessoal (relativa ao desenvolvimento da pessoalidade) e a inteligência interpessoal (relativa à cognição social e integração com o grupo). Outras formas de inteligência são a corporal-sinestésica, a musical, a naturalista e a espacial.

Continuando do jeito que vamos, sem mudanças, teremos efeitos sensíveis nas próximas gerações. A maioria se sentirá rebaixada, deprimida e excluída, submetida a tratamentos médicos para depressão e ansiedade desde a infância até a fase adulta por estarem sempre abaixo da média cobrada e esperada. Os poucos vencedores serão pessoas cada vez mais egoístas e orgulhas, carregando ainda um ressentimento e rancor por não terem tido a oportunidade de serem felizes nos melhores anos de sua vida, ocupando-se totalmente com estudos quando deveriam ter tido a liberdade de ser, protegidos pelo ambiente doméstico.

A criatividade precisa de ócio. A alegria precisa de espaço. As relações sociais precisam de jogos e brincadeiras. A adolescência precisa de hormônios e sonhos. As crianças precisam de tempo para seus contos de fadas. Nosso mundo precisa de mais amor.

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