Aprender mais para servir melhor

by Roger Soares

O médico precisa estudar a vida inteira, o tempo todo. A saga do conhecimento se inicia antes de entrar na faculdade, na preparação para um disputado vestibular, e se estende por toda a carreira profissional pois a ciência médica avança muito rapidamente e a passos largos. O conhecimento de ponta hoje será superado e substituído por um mais avançado em menos de 5 anos. Livros médicos envelhecem de modo acelerado e se tornam obsoletos num piscar de olhos.

Mas não é apenas para se manter atualizado que o médico estuda.

O conhecimento médico é fascinante e cria um poder em quem o possui. Dentre as várias ciências, a medicina é a que mais diretamente conseguimos perceber a aplicabilidade do conhecimento. Qualquer leigo é capaz de enxergar que seu médico sabe o que está fazendo. Quando o médico examina e quase que por mágica aperta justamente o ponto mais dolorido, cuja existência o próprio paciente não suspeitava, fica claro que ele entende do assunto. Do mesmo modo, o doutor experiente formula suas hipóteses diagnósticas enquanto ouve a história da pessoa e pode antecipar certas perguntas, mostrando que compreende o drama daquele indivíduo. Ter esse domínio sobre assuntos e ser capaz de utilizar o conhecimento para interferir direta e positivamente sobre a vida das pessoas gera um estado de satisfação pessoal ao profissional.

Lembro que no início dos estudos na faculdade de medicina, o universo da ciência se abria em infindáveis possibilidades. Estudar anatomia, fisiologia, patologia e decifrar os intricados mecanismos moleculares e celulares que sustentam a vida era fascinante e encantador. O estudante de medicina e o médico em formação têm uma avidez de conhecimento, uma fome de saber dos mistérios que o corpo humano oculta.

Depois da residência médica, ao menos no meu caso, a busca do conhecimento era motivada pelo desejo de excelência. Queria estar na ponta, na vanguarda, no limite entre o conhecimento estabelecido e a área de produção de novas descobertas. Era como se eu pudesse ler hoje o jornal de amanhã, porque no campo da ciência avançada, as publicações tratam de fenômenos que vão demorar anos para serem traduzidos em medicamentos ou tecnologias úteis na prática médica.

Durante o período de amadurecimento da carreira, observei que naquele momento seria necessário cultivar o conhecimento que impacta diretamente no diagnóstico e cuidado dos pacientes presentes no meu consultório. Os avanços da ciência molecular ou genética que não podiam ser utilizados imediatamente deveriam ceder espaço para as coisas mais práticas. A finalidade seria de dar uma assistência ao nível de "estado da arte" no diagnóstico e terapêutica, em consonância com as melhores práticas internacionais de cuidado.

Atualmente, já com a maturidade de quem não se encanta mais apenas pela intelectualidade, a preocupação vai além do conhecimento que continua atualizado pelo estudo diário. Interessa-me saber como o conhecimento científico embasado em sólidos ensaios clínicos pode ser traduzido para a realidade pessoal de cada paciente, levando em conta a história de vida de cada um e o contexto em que a doença se apresenta. Esse processo translacional visa humanizar e individualizar os tratamentos disponíveis, para que o paciente não se sinta perdido ou esquecido pelo médico. Buscamos tratar o doente como um ser integral.

Acredito que muitos colegas passam por essas fases no relacionamento com a ciência médica. No início o conhecimento é prazer pelo conhecimento, é a excitação intelectual. Depois ele vai se conformando às necessidades da vida prática e também ao processo de competição por um espaço no mercado. Por fim, se caminhamos de forma honesta e verdadeira, a experiência de vida se soma para enxergarmos além das doenças e dos órgãos e sermos capazes de contemplar a pessoa e seu adoecimento. Nesse ponto, o que desejo é aprender mais para servir melhor.

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